A dor do parto é, historicamente, um dos principais fatores de medo entre gestantes. Ao longo do tempo, ela foi associada à ideia de sofrimento inevitável, descontrole e risco, afastando a mulher de uma vivência consciente e informada do nascimento.
No entanto, à luz das evidências científicas e da prática assistencial humanizada, é fundamental diferenciar dor de sofrimento e compreender o papel fisiológico, emocional e contextual da dor no parto.
A dor do parto como experiência fisiológica
Diferentemente da dor associada a processos patológicos, a dor do parto é uma dor fisiológica, decorrente das contrações uterinas que promovem a dilatação do colo do útero e a progressão do bebê pelo canal de parto.
Conforme descreve Fadynha, em A Doula no Parto, essa dor apresenta características próprias: é rítmica, progressiva e intercalada por períodos de descanso. Não está relacionada a lesão ou adoecimento, mas a um processo corporal funcional e temporário.
Reconhecer essa diferença é essencial para uma abordagem de cuidado mais respeitosa e eficaz.
Dimensões emocionais e simbólicas da dor
A vivência da dor do parto ultrapassa o aspecto físico. Fatores emocionais, psicológicos e subjetivos exercem influência direta sobre sua intensidade e significado.
O artigo As dores do parto: reflexões psicopatológicas em torno da angústia e do narcisismo primitivo aponta que o trabalho de parto pode mobilizar sentimentos profundos relacionados à entrega, à vulnerabilidade e à perda de controle. Situações de medo, insegurança, exposição excessiva ou desrespeito tendem a intensificar a dor, transformando-a em sofrimento.
Por outro lado, ambientes acolhedores, privacidade, informação clara e presença de apoio contínuo favorecem a liberação de ocitocina e endorfinas, hormônios fundamentais para a progressão do parto e para o alívio natural da dor.
A influência do ambiente e da assistência
As Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal destacam que o modelo de assistência interfere diretamente na experiência da mulher. A imposição de rotinas, a restrição de movimentos, a comunicação autoritária e as intervenções desnecessárias aumentam o estresse materno e podem dificultar a evolução do trabalho de parto.
Nesse mesmo sentido, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um cuidado centrado na mulher, com redução de intervenções médicas desnecessárias, respeito às escolhas informadas e incentivo à liberdade de posição, à presença de acompanhante e ao uso de métodos não farmacológicos para o manejo da dor.
Manejo da dor: cuidado, não combate
O controle da dor no parto não deve ser compreendido como eliminação imediata da sensação dolorosa, mas como manejo consciente e respeitoso, alinhado às necessidades e desejos da mulher.
Entre os métodos não farmacológicos reconhecidos pelas diretrizes nacionais e internacionais estão:
- liberdade de movimentação e posições verticais
- banho morno ou imersão
- massagens e toques terapêuticos
- exercícios respiratórios
- uso da bola suíça
- compressas quentes
- apoio emocional contínuo
Essas estratégias contribuem para reduzir a intensidade da dor, aumentar a tolerância e fortalecer a percepção de controle e protagonismo da parturiente.
Dor não é sinônimo de sofrimento
Um ponto central no cuidado obstétrico baseado em evidências é compreender que dor e sofrimento não são equivalentes. O sofrimento surge, frequentemente, quando há falta de informação, ausência de escuta, perda de autonomia e desrespeito às escolhas da mulher.
Quando a gestante é acolhida, informada e respeitada, a dor pode ser vivenciada como parte de um processo potente, transformador e significativo.
O papel da doula na experiência da dor
A doula não atua para eliminar a dor, mas para qualificar a experiência da mulher diante dela. Por meio de informação, suporte emocional, presença contínua e uso de estratégias não farmacológicas, a doula contribui para que a mulher atravesse o trabalho de parto com mais segurança, confiança e autonomia.
A dor do parto, quando compreendida e acompanhada de forma respeitosa e baseada em evidências, deixa de ser um elemento de medo e passa a integrar uma vivência consciente do nascimento.
Referências
- FADYNHA. A Doula no Parto. 3ª ed. São Paulo: Ground, 2016.
- As dores do parto: reflexões psicopatológicas em torno da angústia e do narcisismo primitivo. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org
- BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Recomendações para estabelecer padrão de cuidado e reduzir intervenções médicas desnecessárias. OPAS Brasil.
- SEPACo. Controle da dor: métodos não farmacológicos.